Detetive palestino liga dois mundos
Folha de S. Paulo, 19/12/2009

Um túmulo em Gaza , de Matt Rees

Policial do escocês Matt Rees é um exemplo de eficácia ficcional para falar de um mundo, para nós, confuso

CRISTOVÃO TEZZA

EM "A INVENÇÃO dos Direitos Humanos" (Companhia das Letras), a historiadora americana Lynn Hunt lembrou a importância do romance sentimental do século 18 para disseminar a ideia, então bizarra, de que todas as pessoas são "iguais". Nos livros, uma criada vivia tantos sentimentos e esperanças quanto o mais rico aristocrata.

A empatia tornou-se uma arma da prosa popular moderna, e, ao lado dela, cresceu o que podemos chamar de "informação emocional", quando dados objetivos da história, da sociologia, da política ou da ciência se envolvem de um pano de fundo ficcional. E por ser a literatura uma arte de assimilação mais exigente, filtrada e demorada, consegue ir mais longe que o cinema, o virtual proprietário da empatia instantânea.

O policial "Um Túmulo em Gaza", do escocês Matt Rees, é um exemplo da eficácia ficcional para falar de um mundo para nós confuso e que costuma se resumir no noticiário à polaridade simplória de árabes versus judeus.

Pelos olhos do detetive Omar Yussef, um professor palestino que vai à faixa de Gaza a serviço da ONU, a narração mergulha no caos de uma região em que tudo é clandestino e se move nas sombras. O autor, um jornalista da revista "Time" que vive há anos em Jerusalém, domina o terreno em que pisa.

A história começa com a prisão aparentemente sem importância de um professor que denunciou corrupção na universidade local. Como em Gaza tudo se relaciona com tudo, a bem-intencionada investigação de Yussef vai se entranhando numa luta feroz de poder entre facções militares, chefes corruptos e fanáticos soldados de Alá, até se ver diante de um novo modelo de míssil contrabandeado do Egito por um dos muitos túneis que desafiam a fronteira.

Nas mãos erradas, seria lançado em Israel; nas "certas", funcionaria como um convincente objeto de chantagem entre milícias árabes. Para marcar o toque de realidade, o autor esclarece que todos os crimes relatados no livro se baseiam em eventos reais.

A estrutura romanesca segue o clássico roteiro do policial noir, com os sempre funcionais chavões do gênero: o detetive em crise, os vilões intocáveis, o ajudante confiável, as piadas e pequenas graças da desgraça.

Mas, em lugar da noite em inferninhos de Nova York ou destilarias clandestinas de Chicago, temos becos sombrios, mártires de Alá, fortalezas de luxo, carros explodindo, túmulos exumados e uma interminável tempestade de areia que se entranha na alma. O detetive Omar Yussef é o ponto de liga entre dois mundos, e é provável que o leitor ocidental compreenda mais densamente as variáveis da tragédia de Gaza por esse típico romance policial do que pelas estatísticas frias que escorrem diariamente nos jornais.


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