Revista Veja - Ed. 2063 - 04/06/2008

Turistas metafísicos

Brasileiras vão à Austrália em busca do paraíso
no romance do holandês Cees Nooteboom


Cristovão Tezza

Duas brasileiras de nome Alma e Almut; um crítico literário holandês chamado Erik Zondag; uma clínica na Áustria, uma favela brasileira, os confins da Austrália; e alguns versos do poema Paraíso Perdido, de John Milton (1608-1674). Com esses pontos de referência heterogêneos, a novela Paraíso Perdido (tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral; Companhia das Letras; 158 páginas; 32 reais), de Cees Nooteboom – escritor holandês celebrado por colegas como o Nobel sul-africano J.M. Coetzee e já conhecido no Brasil por obras como A Seguinte História: –, faz uma breve, fragmentária e sugestiva especulação literária sobre a falta de rumo da vida contemporânea. São dois pontos de vista narrativos que se cruzam por força do que podemos chamar de "estética da coincidência", essa moldura que a arte encontrou para dar liga a coisas que não têm relação entre si. Num deles, a brasileira Alma narra sua amizade com Almut e sua viagem à Austrália, depois de, pagando o pedágio de ser uma personagem brasileira, sofrer um estupro numa favela em São Paulo. No outro, o crítico Erik, em fase de rever a vida, vai a uma clínica na Áustria recuperar-se do alcoolismo e dos males da meia-idade, o que a narração descreve com leveza e graça.

As brasileiras são personagens convincentes (apesar dos nomes incomuns entre nós), o que pode surpreender um leitor daqui, habituado aos chavões exóticos com que nos retratam. Mas o sonho que implicitamente acalentam e que vão buscar na Austrália tem raiz num secreto imaginário europeu, há séculos desejando um paraíso que só pode existir fora do tempo e da história, em alguma pureza primordial acessível apenas na essência da natureza ou em culturas pré-urbanas. Os célebres aborígines da Austrália são exemplares prediletos desse mito, o do "selvagem nobre". O tema do paraíso é, assim, o ponto de contato de todos os elementos dispersos do livro. Ele ressurge como o sonho laico de uma cultura que parece ter esgotado o poço de sua transcendência. As andanças de Erik e os projetos de Alma e Almut são os cacos de uma tentativa de devolver alguma dimensão mítica à vida.

Se a vida não oferece sentido, temos de fabricá-lo a todo custo, mesmo que se resuma a um teatro. O crítico Erik também vai à Austrália, e por acaso acaba participando de uma "festa dos anjos" na cidade de Perth – dezenas de atores fantasiados de anjos passam dias escondidos em vários pontos da cidade. Seguindo um roteiro, um curioso grupo de "turistas metafísicos" deve encontrá-los. Um desses anjos é Alma, por quem Erik se apaixona platonicamente. Perdidos num happening de anjos e homens à beira-mar, só voltarão a se ver três anos depois, fechando o livro. As reflexões de Erik no seu diálogo final num trem em Berlim retomam a idéia da busca frustrada do paraíso. Paraíso Perdido, na sua colcha de retalhos, revela-se uma sensível reflexão poética contemporânea, temperada pela melancolia e pelo humor.

Nuvem de violência

"Não conduzia ela própria: deixava-se conduzir pelo carro. A ignição falha. (...) O que veio depois se deu tão vertiginosamente que não houve tempo para entrar em pânico, gritar ou fugir. Ela não saberia mais dizer quantos eles eram e, mais ainda que da própria idéia do passeio, recriminava-se do enojante pensamento poético com que falsificaria posteriormente o acontecido a fim de se autopreservar: tratara-se de algo com uma nuvem negra. Uma nuvem negra deslocando-se na direção dela. Ecoaram risos quando lhe arrancaram a roupa do corpo. Desses risos ela jamais se esqueceria."

Trecho de Paraíso Perdido


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